ZIGURATE
UMA FÁBULA BABÉLICA
romance de Max Mallmann
Início do Capítulo VII
A partir daquela conversa em dezembro, Etienne Trousson desistiu de Sophie. Na opinião de Trousson, a Aids, os remédios ou a perspectiva da morte haviam abalado a sanidade mental de sua aluna. Formalmente, por uma questão de caridade, justificava-se ele, Trousson continuou exercendo seu papel de orientador, numa tese de doutorado que ele já não sabia mais qual era e nem se um dia ficaria pronta.
Sophie, por sua vez, cumpria rigorosamente o que prometera: estava pesquisando. E, depois que dera a suas pesquisas um rumo que ela chamava de "heterodoxo" e Trousson chamava de "esquizofrênico", um continente de informações completamente novo se desvelou diante dela.
Enquanto procurara pelo "mito" de Lugal e Nin, Sophie não encontrara nada. Mas, depois que passou a procurar por Lugal e Nin como se fossem pessoas reais, os indícios e as informações se avolumavam de modo ao mesmo tempo excitante e assustador.
As embalagens das pastilhas coloridas iam sendo substituídas por novas, a neve derreteu, as árvores do Jardin des Plantes floriram. Sophie percebeu que era primavera de novo e que ainda estava viva. O milagre acontecera, e Sophie nem havia precisado ser hipócrita para rezar por ele. Dedicara-se, no entanto, a uma fé. À crença numa idéia insana. Naquela nova primavera, porém, já não era mais questão de fé. Afinal, ter fé é acreditar sem provas, e Sophie tinha provas. Muitas. Ou, pelo menos, em quantidade suficiente para apresentar a Etienne Trousson, a quem não via desde dezembro.
Trousson atendeu Sophie com uma gentileza excessiva e cheia de cuidados. Parecia temer que ela tirasse uma motosserra de dentro da pequena bolsa e o massacrasse.
Sophie tirou um CD-Rom de sua pequena bolsa. E pediu que Trousson conferisse as informações que ela havia recolhido.
Trousson esperava deparar-se com um monte de sandices. Mas a tela do computador lhe mostrou dados bem organizados e factuais.
Sophie começava explicando seu método de pesquisa: como os sumérios foram um dos primeiros povos a valer-se da escrita, e como Lugal e Nin são palavras sumérias de significado bastante amplo, ambas podem ser encontradas milhares de vezes em textos sumérios, acádios, babilônicos e assírios, compondo o nome de vários soberanos e deuses. Houve reis que se chamaram Lugal-sha-engur, Lugal-ki-tun, Ur-Lugal, um deus que se chamou Lugal-Marada; a senhora de todos os deuses sumérios se chama Ninhursag, outra deusa, a "rainha da terra", se chamava Ninlil, os pais do herói Gilgamesh foram a deusa Ninsun e o rei Lugalbanda, e a grande deusa suméria do amor e da guerra se chamava Inanna, mas o nome da deusa-mãe que a gerou era Ningal. Procurar pelo Lugal e pela Nin imortais nesses textos seria uma tarefa muito mais difícil do que localizar um Pierre específico, de quem não se conheça nem o sobrenome nem o endereço, na lista telefônica de Paris. Tendo isso claro em mente, Sophie deixou de lado a cultura suméria e transferiu a busca para outras fontes.
— E aqui estão os indícios que coletei — ela disse, muito séria, espetando o fino dedo indicador num dos tópicos do texto que aparecia na tela do PC de Trousson.
Nas ruínas do templo de Hathor, deusa do amor e da fertilidade, na cidade de Denderah, no Egito, foram encontradas inscrições mencionando uma sacerdotisa chamada Nin. Segundo os primeiros tradutores, Nin teria sido suma-sacerdotisa da deusa Hathor por um período superior a trezentos anos. A versão mais aceita é a de que Nin seria um nome ou título cerimonial usado por gerações de mulheres. Mas e se fosse a mesma mulher?
Em 1798, mais de dois milênios depois dessas inscrições terem sido feitas, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito. O general, então com 29 anos, desembarcou em Alexandria comandando trezentos navios, trinta e cinco mil soldados e cento e sessenta e sete sábios, entre geólogos, arquitetos, engenheiros, astrônomos, matemáticos, economistas, literatos, antiquários, músicos, escultores, desenhistas, orientalistas, médicos, farmacêuticos, botânicos, zoólogos, físicos, químicos e tipógrafos.
O jovem general parecia dar tanto valor às conquistas que poderia obter através da expedição científica quanto às vitórias militares. Daí veio a famosa frase, quando, durante a marcha para o Cairo e diante das tropas inimigas na planície de Gizé, Napoleão teve de organizar os soldados, os animais de carga e, ao mesmo tempo, proteger os cientistas: Les bêtes et les savants au demi! ("Os burros e os sábios no meio!").
Parte das tropas e alguns dos sábios de Napoleão chegaram até Denderah, no limiar do deserto. Um desses sábios era o químico Nicolas-Jacques Conté. Ele escreveu um relato sobre essa visita:
Nas ruínas de um dos templos, para nossa surpresa, encontramos uma mulher. Ela era bastante jovem e não se assemelhava a uma moura, mas tampouco tinha aspecto europeu. Sua pele não era branca, mas também não era negra ou pardacenta. Era amarelada. Um tom de amarelo ocre que jamais vi nem mesmo entre os povos do Extremo Oriente. Havia muito de bárbaro em sua aparência. Ela vestia uma longa túnica, presa por um cinto no qual carregava uma pequena adaga. Tinha os braços nus. Por baixo da túnica, usava bombachas e botas iguais às dos homens da Turquia. No braço direito, perto do ombro, ela ostentava uma tatuagem, talvez um simples ornamento, como as tatuagens dos marinheiros, embora a figura gravada na pele da jovem desse a nítida impressão de ser uma espécie de pictograma de algum alfabeto incompreensível. Abaixo da tatuagem, ela usava um pesado bracelete de ouro, que trazia em relevo a imagem de uma esfera circundada por chifres. O mais impressionante, no entanto, eram os olhos daquela mulher, que possuíam uma insólita coloração dourada e brilhante.
Nosso intérprete tentou falar com ela em árabe, mas a jovem, de imediato, disse que falava francês. E, sou obrigado admitir, falava francês bastante bem.
Perguntei-lhe de onde vinha e o que fazia sozinha naquelas ruínas. E ela respondeu: "Vim para evitar que vocês terminem de destruir meu templo." E acrescentou que já sabia que soldados franceses haviam usado o nariz da Esfinge de Gizé como alvo para exercícios de artilharia.
Uma mulher só e frágil, e ela falava conosco com a autoridade de uma rainha ou a audácia de uma demente. Perguntei o nome dela. A jovem respondeu apenas "Nin". E também perguntou meu nome, dizendo que queria registrá-lo em seu diário. Ela tirou de uma pesada bolsa um livro grosso, de aparência bastante antiga, e, para minha surpresa, diversos lápis amarrados com uma fita; porém não os lápis criados há pouco menos de trinta anos pelo alemão Kaspar Faber. Os meus lápis, feitos de grafite misturado com argila.
"Isso aqui", ela me disse, escolhendo um dos lápis, "é uma boa invenção". E falou algo sobre ser muito mais fácil usar um lápis do que escrever com uma espátula numa placa de barro. Modestamente, contei a ela ter sido eu o homem que aperfeiçoou a invenção de Faber. Há bem pouco tempo, aliás, em 1795. A jovem sorriu, tomada, suponho, por um espanto igual ao meu pela coincidência.
Para que tivesse um estoque dos meus lápis, ela obrigatoriamente deveria ter visitado a França recentemente. Perguntei-lhe acerca disso e ela, como parecia ser seu estilo, respondeu de modo críptico: "Eu não gostava de Robespierre", foi o que disse.
O sol se punha, e comecei a temer pela segurança da jovem. Mulheres indefesas são uma tentação grande demais. E soldados, mesmo soldados franceses, sempre serão soldados.
Meus temores se confirmaram. No meio da noite, seis dos nossos homens atacaram a jovem. Tudo aconteceu rápido demais para que pudéssemos evitar... ou mesmo entender. Ouvimos gritos horrendos e encontramos os seis soldados mortos. Alguns deles com os corpos dilacerados. Quanto à jovem misteriosa, havia sumido.
Como poderia uma simples mulher, usando somente uma pequena adaga, massacrar seis homens armados e desaparecer sem deixar nem rastros na areia, é uma pergunta que já nem ouso mais formular, e muito menos tentar responder.
Sophie exibiu a Trousson uma possível cópia do relevo que Conté vira no bracelete de Nin:

Era o símbolo da deusa Hathor. A lua cercada por chifres de vaca, representando o princípio feminino e a fertilidade.
Trousson já foi dizendo que aqueles relatos não eram prova suficiente para... Mas Sophie o interrompeu: "Espere. Estou apenas começando."